quarta-feira, 16 de maio de 2007

The Church - It's No Reason

Um dos meus "clássicos".

Underwater Love

As asas que flutuam
na água
tépida
doce
serena;

As vozes que silenciam
na alma
dores
ecos
beijos;

e o meu cabelo solto, como gostas!

Filipa Rodrigues
By Zena Holloway

Gatos e Pessoas

Por fora do vidro da janela, uma luz evasiva parecia querer anunciar-se. Dia ou noite… branco ou negro, sem mais ou menos, certo ou errado, fome ou sede. Indistintos os sentidos dos lugares que ocupava sem deixar marcas. Nas vozes que ouvia sempre, na sala ou nos quartos, os sustos premeditados e os medos repentinos de quem nunca se habituou a estar com os outros. P. fincava bem os pés no soalho aquecido, como se o seu propósito não fosse mais do que permanecer imóvel a vida toda, dentro da sua vontade inteira. O que ela mais queria: que o silêncio se instalasse definitivamente dentro de tudo o que conhecia.
Filipa Rodrigues

Felinos...






By Christian Coigny

terça-feira, 15 de maio de 2007

Sensações de filigranas





















By Ansel Adams


"Caminho...

Oscilações difusas de cores brandas, aquosas, ascendem em movimentos de hélice, a refrescar o ar à minha volta - indícios multicolores soçobram - enroscam-se sons perdidos de azul, num retinir cendrado - volteiam sensações de filigranas - alastram-se ecos de marfim...

Tal é a paisagem de subtileza, nostálgica doutros mundos, que me encerra hoje!

Tudo se me toldou a bruxulear. Tudo se me substitui em Imponderável.

Eu sei, eu sei. É que, verdadeiramente, a partir da Hora-imperial, a minha existência tornou-se sensível a outras dimensões. E é nelas que prossegue hoje a minha vida estática...

Luar de embandeiramentos.

In Céu em Fogo, Mário de Sá Carneiro

cat power - maybe not

Esta música é para mim!

Exercício da Luz

A sua função: perpetuar os pensamentos através da escrita.
Lá, foi toda névoa e corrente forte.
Sem querer, notou a passagem fugaz dos números que lhe ofereciam como esmola.

Longe daquilo que tivera, com um propósito… ser mais do que tudo,
À velocidade da luz que a aquecia sem queimar.

Filipa Rodrigues

Sufjan Stevens - Chicago

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Divagações

"PELO DEVER

de resistir e caminhar
pelos destroços da nossa utopia,
eis-nos aqui de novo, acocorados,
aqui onde o tempo pára
e as coisas mudam.

E PARA QUE O NOSSO SONHO RENASÇA

com a levitação do vento e do grão,
eis-nos aqui de novo,
passivos como os espelhos,
no tear da nossa existência.

ESTE SEMPRE SERÁ

O nosso amanhecer.
E a nossa perseverança
é como a da erva daninha
que lentamente desponta na pedra nua."

In Estrangeiros de nós próprios, João Armando Artur

Levitação

By Zena Holloway

semeia este poema no dia

semeia este poema no dia
disseste
do corpo a morte
como a derrocada da casa
e seus alicerces
para que outros acolham e propaguem
é necessário deixar qualquer coisa feita
sentes estranha a claridade do infinito
pois repara
como labora a chuva sobre a terra
disseste-o tão mais próximo de mim

Maria Costa
By Sonja Mueller

sábado, 12 de maio de 2007

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Querendo ser seda

igual a ninguém eu sou eu
sendo invento em evento
para como seda ser teu
mesmo se sendo só vento

numa carícia à distância
levando o perfume pele
um corpo de ser na ânsia
da escrita sobre papel…

em formato digital dito
nu que agora se escreve
um pensamento expedito

sentir alma de seda a ser
na ideia de mim vai leve
como de ti veio prazer

Francisco Coimbra

Movimento

By Christian Coigny

Coldplay - Fix You (Live At Glastonbury)

For a picture

Na dobra do teu ombro
macio e confuso,
fui o gesto lento do teu braço
que se aproximou da roda que balançava;

numa sede de memórias
fico-me à espera
do preenchimento das paredes vazias.

Filipa Rodrigues
By Christian Coigny

quinta-feira, 10 de maio de 2007

"Man Walking Dog"

"Cheguei ao cinema pela pintura, e a pintura é fundamentalmente um meio sem palavras. Eu adoro palavras nas pinturas, certas palavras"

David Lynch

a cantar vive o poeta

a cantar vive o poeta
letras de liberdade
numa imperiosa oferta
vibrante de ansiedade

letras de água salgada
letras de sol, luz e cor
letras de alvorada
letras de seiva e amor

a cantar vive o poeta
letras ao vento que passa
nas moitas de tojo e giesta
onde se esconde a desgraça

letras de mágoa, alegria
letras de estrelas, luar
letras da noite, do dia
letras do verbo amar

a cantar vive o poeta
letras ao Universo
tecendo letras de festa
nas finas tranças dum verso

letras de boa e má sorte
letras de sensações
letras de vida e morte
letras de quatro estações

a cantar vive o poeta
letras p´ra toda a gente
mendigo, rei ou profeta
canta o que vê e sente

e de asas suspensas no ar
colhe pérolas do Infinito
que faz sua alma flamejar
no divino processo de criar

a cantar vive o poeta
mendigo, rei ou profeta.

In, “ entre dois nós”, Teresa Gonçalves

The GodFather




Na ferida aberta

até as palavras
na tua voz
acertam no espaço ocupado

atiro
o baloiço
como arma
para as tuas pernas
que logo sangram…

balanço
as horas
ainda cá
na poça de sangue

acaricio
com pena
os teus joelhos

que, no entanto
não saram

apenas com festas

sopro
e fica
a ferida aberta…

Filipa Rodrigues

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Underwater


By Zena Holloway

Anacrónico


By, Luís Monteiro da Cunha

Anacrónico dos Sentidos

Experimenta fabricar um dia de ausências:
nem som ou visão. Um dia: puro,
sem a mácula de ruído, de imagens.

Procura o isolamento profundo.
Lentamente,
inexoravelmente, és invadido por leve torpor
que docemente embriaga o plexo,
extraindo-se do nexo casual
e o vazio.
Uma acre sensação de abandono;
de perda; de ausência;
o fel do corpo sobe
à garganta,
sentes a matéria desfazer-se,
ínfima, retalhada,
a voar, milhares de estrelas brilhantes, e
tu vogas, perdido da matéria, do som, do olhar,
como se o peso do conhecido te contraísse o peito,
que sofre avassalador
a implosão da razão. Uma dor lenta,
infantil, acomete os teus olhos
uma vontade dos seios e sorriso mater.

Regride ao ventre que te gerou, e choras,
e espantas-te, e renegas,
e querees socar o universo que gravita serenamente na poeira cósmica de quanto o teu consciente consegue tomar como conhecimento.

Do que sentes e vês sem ver.
Apenas sentes imagens
que fulgurantes, perfuram os sentidos meteróricos.

És acometido pelo impluso
primário de perda
do in-conhecimento humano.

A nova sensação é voraz e dolorosa.

Resiste, resiste!
Não bulas, nem te atrevas a retesar um só músculo.
Aceita-te como te vês, assim és.
Acolhe o esgar dos lábios que extrais do teu ser,
como a força que mantém a imobilidade.
Inerte o gesto e o corpo, que vibra louco,
negando-se por desanexação do real/ irreal.

Agora, encontras-te encontrado,
acolhe tua nova, sempre presente, fragilidade.
Devora o medo, lento, que te invade
de imediato se esvai escuro claro que se faz.
A luz da utopia é a concepção de ideias generalizadas.
O eco que apenas adivinhas nos farrapos de imagens
que trespassam libidinosamente a fragilidade da coragem.

Começas por reconhecer o ínfimo sentimento de paz que te absorve, anulando inúteis temores, inúteis gritos, inútil reconhecimento.

Abandona-te nos braços da teia microscópica
que embala a sensação de finidade inútil.

Reconhece, sem que te reconheças, o vazio da existência magma, onde flutuas.
Sabes agora que a dor – do que conheces como vida – é a dor vazia
inexpressiva de conteúdo, supérfluo viver/sofrer, ignota ignorância do desnecessário preciso.

Apenas após conhecer o silêncio, a in-visão,
quando escutas – inundado – o troar forte
e cadenciado da máquina universal, conseguirás escutar,
ver e compreender, os maravilhosos ínfimos sons,
que te envolvem, penetram e sustêm a matéria.

Saberás então, que o mundo és tu, - etéro –
vive em ti e de ti, engrenagem fundamental
da anacrónica função que resiste, apesar
de cronologicamente, seres um ser,
esquecido que persiste no gesto do suicídio.

Luís Monteiro da Cunha

Lançamento da 1ª Antologia da lista "Amante das Leituras"

O lançamento da 1ª Antologia da lista "Amante das Leituras" irá decorrer, no dia 2 de Junho, na Junta de Freguesia de S. Mamede Infesta, em S. Mamede Infesta ( Matosinhos), pelas 15:30h.
Na Antologia participam 18 autores, com poesia, sendo eles:
- Alexandra Oliveira
- Alice Sequeira
- Ana Maria Costa
- Bernardete Costa
- Carlos Luanda
- Eliana Mora ( Brasil)
- Filipa Rodrigues ( sou mesmo eu!!)
- Francisco Coimbra
- Jorge Vicente
- José Félix
- José Gil
- Luís Monteiro
- Manuel Bento
- Mónica Correia
- Rodrigo e Sousa
- Teresa Gonçalves
- Vera Carvalho
- Xavier Zarco.
Durante o evento poder-se-á assistir a declamação de poemas dos diversos autores, a uma pequena actuação musical e, por fim, a um bailado.
A responsabilidade da edição do livro está a cargo da Ediumeditores, e é a concretização do sonho da Ana Maria que já por aqui tem andado.
Está toda a gente intimada a ir!!

By Matisse

terça-feira, 8 de maio de 2007

Duas janelas


By Daniel Blaufuks

Raio de Visão

Tenho dois olhos
ambos cegos
um do outro.

Ana Maria Soares Costa

EP - Estúdio Café

EP é um café-estúdio que, nas próximas semanas, irá abrir as portas em Penafiel City! É um projecto colectivo e, por isso, ecléctico. Com os pés na terra, vamos tentar introduzir na cidade e, porque não, no país, um conceito de Café-estúdio no qual predominarão múltiplas expressões artísticas. O Jazz, diga-se desde já, será Deus no nosso espaço!
Para além da ambiência artística e relaxada, vamos dispôr de um conjunto de produtos e serviços, onde predominará a boa comida, o bom vinho, o melhor café, as melhores bebidas, enfim, tudo do melhor, como num bom Extended Play!

La Danaide


By, Rodin

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Pedro Pascoinho
(...)

Abri o pacote. Tinha um conjunto de imagens estranhas. Contei uma dezena e meia de lustrosas reproduções a cores do que podiam ser de pinturas ou ilustrações gráficas. A técnica de representação das figuras, paisagens e instrumentos era perfeita embora cada uma das verdades que transmitiam acabasse por se transformar, talvez não numa impossibilidade mas numa evidente irrealidade espacial, temporal e narrativa.
(...)
Ficção a partir da pintura de Pedro Pascoinho por João Lima Pinharanda

Palavras



By, Daniel Blaufuks

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Ao longo da muralha, Mário Cesariny

oração por um lugar vazio

não haverei de estar em cinzas para ressurgir de mim

ó mestre, desconstrói-me as lembranças em fatos sem emoção:
basta-me um fragmento de paisagem, por habitação poética

cúmplice e intimo, ajuda-me a seguir

leva-me a um lugar vazio onde a claridade
entre comigo e eu veja além do desenho
das nossas sombras unidas no chão

e deixa-me lá, para que sozinha eu plante
raízes submersas em uma corrente quente
e nela flua, poema sem ti.

Sónia Regina

By, Sebastião Salgado

Um Leitor

Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;
a mim, orgulham-me as que li.
Não terei sido um filólogo,
não terei investigado as declinações, os modos, a laboriosa mutação das letras,
o de que se endurece em te,
a equivalência do ge e do ka,
mas ao longo dos meus anos professei
a paixão da linguagem.
As minhas noites estão cheias de Virgílio;
ter sabido e ter esquecido o latim
é uma posse, porque o esquecimento
é uma das formas da memória, a sua vaga cave,
a outra face secreta da moeda.
Quando nos meus olhos se apagaram
as vãs aparências queridas,
os rostos e a página,
dei-me ao estudo da linguagem de ferro
que usaram os meus ancestrais para cantar
espadas e solidões,e agora, através de sete séculos,
desde a Última Thule,chega-me a tua voz, Snorri Sturlson.
Diante do livro, o jovem impõe-se uma disciplina rigorosa
e fá-lo atrás de um conhecimento rigoroso;
na minha idade, qualquer empresa é uma aventura
que confina com a noite.
Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,
não mergulharei as mãos ansiosas no outro Sigurd;
a tarefa que empreendo é ilimitada
e há-de acompanhar-me até ao fim,
não menos misteriosa do que o universo
e do que eu, o aprendiz.
Jorge Luís Borges

domingo, 6 de maio de 2007

(Escre)ver-me

nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me trancrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

In, Rais de Orvalho e Outros Poemas, Mia Couto

sábado, 5 de maio de 2007

(des)conhecimento



By Kandinsky

"Enquanto eu lia o livro, a famosa biografia:
- Então é isso (eu me perguntava)
o que o autor chama
a vida de um homem?
E é assim que alguém,
quando morto e ausente eu estiver,
irá escrever sobre a minha vida?
(Como se alguém soubesse
da minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes
sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha:
somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados
e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho
daqui afora.)"


Enquanto eu lia o livro, Walt whitman

The Birds


Tippi Hedren

"Suspense não é a manipulação de material violento, mas sim a dilatação de um período de tempo, a ênfase no que faz o coração bater mais depressa"
Alfred Hitchcock

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Exercício do Rodopio


By Marly
Guarda-chuvas para Goeldi


"Dez guarda-chuvas abertos, a rodar a toda
a velocidade em mãos ávidas de experiências
materializáveis. coloridos como flores, vivos como
bichos selvagens e indomáveis.



Rodopio, rodopio sempre sobre pés doridos e
espírito bamboleante!
Grito!
Grito!
Grito!



Sensível às pequenas coisas. Aos sopros mínimos,
aos pensamentos simples."



In, Os meus exercícios, Filipa Rodrigues

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Caminhos sinuosos


By Daniel Blaufuks

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

"In the Neighborhood: streets from New York"


By Etsuko Kimura

" Tenho luzes suficientes para saber que as palavras num texto se contaminam umas às outras, de maneira que, lançando eu aqui as minhas, mais cedo ou mais tarde, por via osmótica ou diluição homeopática, acabarão por chegar ao destinatário, circule ele mais «supra» ou mais «infra» em relação ao ponto de inserção."


In Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina, Mário de Carvalho


Inferno!



"Eu devia ter o meu inferno para a ira, o meu inferno para o orgulho, - e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
Morro de tédio. É o túmulo, vou para os vermes, horror dos horrores! Satanás, farsante, queres dispersar-me com as tuas feitiçarias. Reclamo. Reclamo! um golpe de forquilha, uma gota de fogo.
Ah!, Subir de regresso à vida!
Volver os olhos para as nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueza do mundo! Piedade, meu Deus, escondei-me, sinto-me tão mal! - Escondo-me e não estou escondido.
É o fogo que se ergue com o seu maldito."
In Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud

quarta-feira, 2 de maio de 2007

El laberinto del fauno




para que o mundo mágico de faunos e elfos faça sempre parte de nós!!!


"Estendi os braços à procura de qualquer coisa a que me pudesse prender, e não encontrei nada. Mas, embora ao estender os braços, ao fazer o esforço para agarrar, para me prender, ficasse tão sem nada como antes, embora isso acontecesse, o certo é que encontrei qualquer coisa que não procurara: encontrei-me. Descobri que o que desejara a vida inteira não fora viver - se o que os outros fazem se chama viver - e, sim, exprimir-me. Compreendi que nunca tivera o mínimo interesse em viver, mas apenas nisto que estou a fazer agora, em qualquer coisa que é paralela à vida, que simultaneamente, faz parte da vida e a ultrapassa. O que é verdade pouco ou nada me interessa, nem tão-pouco o que é real; só me interessa o que imagino ser, o que asfixiara toda a vida a fim de poder viver. Se morrer hoje ou amanhã ser-me-á indiferente, sempre foi; o que me incomoda, o que me ulcera, é que mesmo hoje, após anos de esforço, não possa dizer o que penso e sinto."
In, Trópico de Capricórnio, Henry Miller

Aaaah! Pessoas loucas!

"Mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches fabris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama «Aaaah!».
In Pela Estrada Fora, Jack Kerouac.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Nude with crucifix


By Malangatana

A lassidão dos corpos

By, Hendrix


"Nému dormia, uma mão metida entre a cara e a almofada, nu, viajando pelo desmesurado espaço dalgum sonho de onde, certamente, Beno fora excluído.
E, por instantes, este sentiu ciúmes por não poder estar dentro do sonho de Nému.
Mas com o decorrer dos meses, Beno viria a aprender que é muito mais difícil dormir com alguém, ser cúmplice desse abandono, dessa ausência a dois, do que fornicar.
E ambos foram aprendendo a dormir um com o outro, e Beno deixara de ter ciúmes dos sonhos de Nému.
«Fornicar - pensava Beno - fornica-se com quem quer que seja, ou com quem seduzimos e desejamos. Mas dormir, dormir é muito mais complicado, leva tempo até se perder o medo de entregar o corpo, assim, ... ao outro. E a lassidão dos corpos abandonados aos segredos do sono um do outro ... é bela!»".
In Lunário, Al Berto