terça-feira, 5 de agosto de 2008

Toma nota:
Há passos incalculados que custam uma vida de regressos!
Vê como o silêncio pode iludir-nos
Inebriar-nos num ritmo enganoso de felicidade.

Toma nota:
Há princípios que não levam ao desmoronamento de corpos!
Vê como os meus passos etéreos se transformam
E nos conseguem enganar para além do suportável.

Não existem precipícios sem finais trágicos!

Filipa Rodrigues

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

Jorge Luís Borges

Shadow


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Elevação ...

Acima dos valões, acima dos quintais,
Das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares,
Muito depois do sol, dos campos estelares,
Muito além dos confins das esferas astrais,

Espírito meu, voas com agilidade;
Como o bom nadador que na onda se excita,
Mergulhas com prazer na amplidão infinita,
Na indizível volúpia da virilidade.

Decola para longe deste chão doente,
Vai te purificar no ar superior
E sorver o límpido, divino licor
Da clara luz que inunda o espaço transparente.

Em meio a infortúnio, mágoa e veneno,
Que tornam mais pesada esta vida brumosa,
Feliz de quem puder com asa vigorosa
Alçar vôo no céu luminoso e sereno;

Quem tiver pensamentos como a passarada
Que no ar da manhã revoa em liberdade
Quem planar sobre a vida, entender a verdade,
Na linguagem da flor e das coisas caladas!

Charles de Baudelaire

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Elevação


quinta-feira, 26 de junho de 2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Ascensão


Realidades!!!


Nuno Lobito in Olhares.com

segunda-feira, 2 de junho de 2008

"Vens?"

Rattus, in Olhares.com
"Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando- lhe aquilo que devia ou não silenciar. "
Al Berto, in Anjo Mudo

quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Tomorrow is a long place"


Daniel Blaufuks

Morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Morre lentamente...

Pablo Neruda

terça-feira, 20 de maio de 2008



Vitória Gonçalves

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Palácio do Caos



Olhares.com - Fotos de Tomaz

necessidades....

"A civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias."

M. Twain

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Hope




By Maciej Dakowicz


terça-feira, 29 de abril de 2008

happy birthay

PARABÉNS!!!

Parabéns Filipinha!


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Imagens





(Fotos de Reza)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Natureza...


By Vitória Gonçalves

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

"Sem título e bastante breve"

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
... esta memória lâmina incansável

um cigarro outro cigarro
vai certamente acalmar-me
.... que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água? no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão.

Al Berto

terça-feira, 23 de outubro de 2007

"Toda a gente tem um anjo"



Fotos de Tomaz - Olhares.com

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

"A caminho do paraíso"


Bruno M. Ramos in Olhares. com

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

onde?



Alfredo Almeida Coelho da Cunha

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

De um para outro lado

se me deixares migro
de um lado para o outro lado do espelho
se me quiseres
inteira
comum
válida
transporto o mar dos meus olhos
para o vidro que te separa da minha forma frágil

entra-me pele dentro
o toque áspero da tua mão
de duração mínima

entra-me pele dentro
o ar vigilante com que me condenas
a um cárcere ínfimo

se me deixares fujo
para onde a minha imagem não possa ser aprisionada
se me quiseres
ausente
imortal
como memória
escondo o verde traiçoeiro que carrego
no azul tranquilo de outro elemento

Do que gosto...

… de fotografias com água;
… de esperar pouco tempo, após marcar um encontro;
… do cheiro da terra depois de ter chovido, preferencialmente no Verão;
… da minha cadela, companheira de brincadeira;
… de provocar um sorrisinho de esgar em mim mesma;
… de pipocas doces;
… de pantufas fofinhas;
… de ser predadora e não presa;
… de me surpreender;
… de escrever cartas longas;
… de sumo de laranja pela manhã;
… de música melancólica quando me sinto angustiada, ou de uma boa bateria quando estou furiosa;
… de filmes que me façam chorar;
… da gramática portuguesa;
… de conversar em voz baixa, deitada na cama;
… de uma banheira cheia de espuma;
… de andar descalça em areia molhada;
… da comida açoriana, das hortênsias a delimitarem os campos, dos touros soltos nas ruas;
… dos meus amigos, a quem não tenho de me explicar;
… de velas acesas no terraço e um copo de vinho aquecido;
… do meu diário actual;
… do silêncio confortável entre duas pessoas;
… de colorir desenhos;
… de cozinhar ao sábado à noite para quem aparecer;
… de girassóis com pé alto;
… de livros, muitos livros espalhados pela casa, como damas de companhia;
… de confidências madrugada fora;
… de bolo de bolacha, fresquinho;
… de gargalhadas sonoras;
… das planícies do alentejo, enquanto alguém me conduz;
… da independência do meu gato;
… de sotaques e da língua portuguesa;
… de ser só, no meio de toda a gente;
… de ser provocada;
… de comprar e oferecer presentes sem razão;
… de comer sushi, devagarinho;
… de canetas de tinta permanente;
… de jazz e bossa nova;
… de vozes que choram;
… de datar tudo:
… de olhares quietos;
… de mim toda;
… de chá preto, em todas as estações do ano;
… de escrever noite dentro;
… de pensar e dizer coisas simples;
… do sol imenso;
… de xaropes para a tosse, por vício;
… duma esplanada à beira-mar;
… da voz do Camané;
… de sair sem destino logo pela manhã;
… da paisagem que vejo da janela da biblioteca;
… de fechar os olhos e respirar se me sinto cansada;
… de camisolas grossas de lã no Inverno;
… de novas descobertas;
… do verde do Minho;
… de dormir sem luz e muito;
… de sentir alguém mexer-me no cabelo;
… de viajar com companhia;
… de ser assim, sem mais!!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007


Foto: Bruno Espanada

Dúvida Mínima

Deixo as palavras enterradas na areia
corro sem saber se
fora de mim existe estrada ou mulher

Penso nos gestos atirados aos outros
como amuletos que
fechados para o mundo me iludem os olhos

A pele cansada do sossego
desgasta-se sem remédio
ardendo no inferno da tua ausência em mim

Põe o sol no sítio e deixa-me estar quieta,
dizia-te eu
enquanto ainda possuía na garganta
a força do teu sopro em mim.


Seremos hoje as cinzas que ainda restam dos nossos corpos de ontem?

Abraço

No abraço longo que me ofereces
descreves, talvez, os passos outrora marcados na areia
subscreves, com evidência, o que risco na água turva
e assinas a sangue, com fervor, o ar que nos rodeia.

O frágil gesto que me envias
com convicção
sem testemunha
tenta convencer-me a olhar o dia como um dia perfeito.

Mas hoje é dia de partida,
de despedida,
da suave paz do abandono voluntário…

longe de mim a vontade de ficar!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Um dia...

Acreditas no que te digo hoje?
Nas dúvidas atiradas pela janela de vidros sujos,
no desespero da manhã,
nos lençóis deixados em desordem?

Acreditas nos sons que te vêm de longe?
Nos rádios dos bares outrora ocupados,
no lento torpor da tarde,
no carro estacionado à porta de casa?


Acreditas no que vês agora?
Nas longas horas passadas num sofá deitado,
na espera ao fim do dia,
na lista telefónica a amarelecer?

Filipa Rodrigues

Sendo tu...

Vivo dentro de mim com a idade que me deste

sou pedra e toque
gelo e água

vício terno
veneno suave
vaidade doce.


Calada a minha voz teima em obedecer-te

palavra e som
erva daninha
nota deslocada

e na noite perene, silêncio sem retorno.


Filipa Rodrigues

De todas as cores (improviso)

Nas cores dos dias inteiros
caminhas em cima de águas revoltas
por entre pedaços de pedras roxas;

Nos dias das cores todas
passas as horas nas vagas febris
do ouro a que me proibiste o acesso;

Hoje... neste dia carregado de sombra negra
nesta manhã de sol aparecido
escondes-te na vontade de me provocar.

Filipa Rodrigues

terça-feira, 11 de setembro de 2007

quase luz nenhuma



"em todos os retratos haverá um rastro de ferrugem
porque a demora corrói o olhar ... alinhava no papel
o ácido das noite em sépia

no vidro das montras pressentimos a fuga
o desabar da cidade sob o peso da chuva ... sempre
que o diálogo existe entre a sensibilidade do corpo
e do filme ... as mãos repetem os gestos
as palavras desfazem-se no luso-fusco surge o medo
estas pedras fascinadas pelos néons donde se solta a fera
que nos devassa os umbrais dos dias morrendo

caminhamos pela avenida miniaturizada no sonho
aqui devoramos os alicerces de quase luz nenhuma
aqui nos perdemos propositadamente ... a paula o paulo
e a silhueta duma gabardina preta comigo dentro

ao que dizemos e à noite amiga fico atento
hipnotizado nas luzes terríveis ... o receio
de mais tarde olhar as fotografias e já não sentir
pulsar no papel vida nenhuma"

Al Berto

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O`Neill

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

a normal day


By Dinu Lazar

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Door


By Geoffroy Demarquet





"O coração, se pudesse pensar, pararia."

Bernardo Soares

sábado, 25 de agosto de 2007

Esperemos

"Há outros dias que não têm chegado ainda,
estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão
-existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato."


Pablo Neruda (Últimos Poemas)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Viagem

No sol calcado que desvanece
uma luz desmaiada
o pó da estrada.

No lento percurso da viatura
vês os dias correrem
na direcção oposta.

Fossem todos os propósitos vistos por dentro,
todas as fases esclarecedoras,
todos os sinais interpretados
e o silêncio deixaria de existir.

Desaparecessem todas as mágoas escondidas
e não estaríamos aqui
envoltos em penumbra e calor.

Filipa Rodrigues

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Improviso de Verão

Aparece de lá longe o dia quente
a pedra mole
o fogo a saltar.

São dois corpos molhados
a areia a escorrer
a pele queimada.

Quando a porta se abre e me vês,
impaciente
irada
pronta a atacar,
já não sou menina doce.

Longe, os dias de intimidade
ainda nos restam na memória
e no corpo cansado.

Dois ou três movimentos… eu e tu!

Filipa Rodrigues

sábado, 18 de agosto de 2007

Beleza



By Agatha Katzensprung



"[...] A beleza é uma forma de génio...
diria mesmo que é mais sublime que o génio por não precisar de qualquer explicação.
É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol,
ou a primavera, ou o reflexo nas escuras águas dessa concha de prata a que chamamos lua.
É inquestionável. [...] "

In O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

o mundo aos pés ou ...




By Agatha Katzensprung

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Dança

Entre o vazio da sala e eu
permanece fixa a tua presença,
obstinada,
alicia como quem despe com um olhar
os meus sentidos,
arrepia a minha vontade
como a lâmina de uma espada
e faz tremular a memória
ainda casta.

Inspiro o teu perfume que as paredes libertam
e a minha face ergue-se
à procura do teu beijo.
Não te alcanço.
O corpo vem por arrasto.
Não te alcanço!
Os braços estendem-se para abraçar as
partículas que ainda restam.
Não te toco!
Giro, volteio, revoluteio.
Não te encontro…
O delírio atira-me ao chão
mas a vontade ergue-me a face
à procura do teu beijo.

Vera Carvalho

domingo, 12 de agosto de 2007

estados

Naqueles anos, todos eles se tinham movido sem saberem muito bem se acordariam na manhã seguinte. Viviam numa febre constante, numa vertigem, nem excesso permanente. Era preciso viver depressa e morrer, de preferência ainda jovem. Nenhum deles alimentava projectos ou ambicionava fosse o que fosse. Era lhes indiferente estar vivo ou morto. Mantinham-se nesse lugar mal iluminado e sem saída: a vida.
Uns tinham fugido de casa dos pais, outros tinham-se exilado voluntariamente do mundo. Viviam espalhados por apartamentos de subúrbio, ou tinham viajado por países distantes donde raramente regressavam. E, dos que ficaram, nenhum possuía uma ideia precisa daquilo que seria necessário fazer para não sucumbir em tamanha desolação. Nenhum deles tentara sequer explicar aos outros que estranho vazio se apoderara de si.
Restava-lhes a amizade e a cumplicidade de alguma paixão para resistirem ao caos devorador da cidade, e à moleza quase beata da "geração" a que se recusavam pertencer.

"Geração" essa que eles viram, com curiosidade e algum desprezo, pôr a tralha às costas e partir sem destino. Anos mais tarde, uma vez regressados, atulhados de tudo quanto haviam recusado e abandonado, não faziam senão cobrir-se de ridículo. Vivendo no sossego falso de apartamentos "estilo humilde"(banquinhos de madeira e almofadas no chão, reproduções de budas espalhadas desde o wc ao quarto), rodeados de filhos e animais de estimação, davam-se ao trabalho de inculcar, tanto a uns como a outros, novos preceitos morais e uma boa dose de ecologia tonta. Eram peritos em discursos santos e tristonhos, advertindo à força as crias vegetarianas contra os inúmeros pecados da carne.
Para Beno e os amigos, era precisamente a fúria de tudo desejar e ter imediatamente que os impedia de soçobrar na vulgaridade e na norma. Os outros pareciam acomodar-se num estado morto-vivo, enquanto eles iam morrendo a cada instante. Lúcidos e atentos, mesmo quando a loucura lhes roubou Zohía, e a morte embarcou Kid num esquife de treva e dor.

In Lunário, Alberto

Em algum lugar...



By Alfredo Almeida Coelho da Cunha, in Olhares

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Aqui. Hoje.

Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.

Jorge Luís Borges

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Fusão





By Geoffroy Demarquet