Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa São Tomé
Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau
Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be
Até bô voltà
Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Dois instantes
Ele dizia: “Sou imortal porque não tenho onde cair morto”. E ela ria muito enquanto lhe esfregava as costas frias e lhe via as marcas das feridas que eram cada vez mais fundas e mais feias.
Durante a noite não dormia. O frio não o deixava sossegar e ela queria estar sempre atenta para o poder aquecer. P. sentia-se impotente, como se tudo valesse nada e as cores não fossem mais do que pequenas contas enfiadas em fios frágeis e invisíveis.
Ele dizia: “ São as tuas mãos que não me deixam morrer já”. E ela deixava-se cair no sofá que era o corpo dele magro e insensível ao seu peso.
De manhã abria os olhos muito devagar. A luz rara fazia-lhe cócegas nas pálpebras e no nariz e ela passava-lhe um pano molhado para o manter sereno. J. pensava no tempo que poderia aquilo ainda durar, como se nenhum dos dias fosse real e as horas não fossem mais do que uma permissão débil para respirar um pouco mais.
Filipa Rodrigues
terça-feira, 5 de junho de 2007
A culpa é da vontade
Se um dia puderes ver o que eu digo em voz esganiçada,
Se noutro dia conseguires perceber os meus gritos agudos,
Da janela ou da vida… do sonho ou realidade…
Se um dia conseguires andar entre muros de pedra e arame farpado,
Se noutro dia puderes libertar-te do peso da fortuna e do sol,
Do vento ou da pressão… da sinfonia ou cor…
Se um dia te vires privado do poder da escolha errada,
Do passo mal calculado,
Da necessidade feroz de ser outra coisa…
A culpa é da vontade!
Filipa Rodrigues
Se noutro dia conseguires perceber os meus gritos agudos,
Da janela ou da vida… do sonho ou realidade…
Se um dia conseguires andar entre muros de pedra e arame farpado,
Se noutro dia puderes libertar-te do peso da fortuna e do sol,
Do vento ou da pressão… da sinfonia ou cor…
Se um dia te vires privado do poder da escolha errada,
Do passo mal calculado,
Da necessidade feroz de ser outra coisa…
A culpa é da vontade!
Filipa Rodrigues
segunda-feira, 4 de junho de 2007
sonho...
"Vêem-no? Estão a ver-lhe alguma a história? Vêem alguma coisa? Até parece que estou a tentar convencer-vos de um sonho - tentativa inútil porque o relato de um sonho não transmite a sensação-sonho, aquele emaranhado de absurdos e surpresas, o desespero na angústia de sermos aprisionados, a sensação de sermos presas do inacreditável que é verdadeira essência dos sonhos...
Fez um instante de silêncio.
- ... não, é impossível; é impossível transmitir a sensação-vida de uma época que vivemos - aquilo que constrói as suas verdades, o seu significado - a sua penetrante e subtil essência. É impossível. Vivemos como sonhamos - sós..."
In O Coração das Trevas, Joseph Conrad
Fez um instante de silêncio.
- ... não, é impossível; é impossível transmitir a sensação-vida de uma época que vivemos - aquilo que constrói as suas verdades, o seu significado - a sua penetrante e subtil essência. É impossível. Vivemos como sonhamos - sós..."
In O Coração das Trevas, Joseph Conrad
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Carta a J.
Ainda te posso escrever, sabes? Neste tempo que é só meu, neste espaço que ninguém molesta posso ainda escrever-te.
Se me voltares a agradecer palavras mando-te embora! Peço para voltares a ser apenas uma memória.
O nosso destino não foi traçado para o percorrermos sozinhos, cada um para o seu lado. Tu sabes isso, ainda que nos seja tão difícil de aceitar.
Eu, de um lado, tu do outro, mas unidos pelas palavras que de nós brotam como se fôssemos terra húmida; unidos pela total ausência da necessidade de agradecimento e confissão; juntos pelo simples prazer desse sentido de existência paralela.
E é a distância que agora nos salva, essa mesma distância que outrora nos foi tão cruel e quase nos asfixiou. Essa que se entrepunha lá por casa, pela rua enquanto passeávamos abandonados à sensação ilusória de liberdade, pelos lençóis que escolhíamos sem grande exigência.
Atrevemo-nos tanto. Tínhamos tanta força, tanta coragem para viajar sem interrupções demoradas. Frágeis as palavras que lançávamos aos outros. Vincado o nosso futuro que teimávamos em construir a desfavor do vento.
Se tivéssemos sido logo abalroados pela velocidade da vida que ousávamos levar. Se alguém nos tivesse parado a tempo de conseguirmos escolher outras pedras coloridas, outros aquários disformes, outras mãos velhas, outras carpetes usadas, outras casas estranhas. A cozinha visitada, o quarto arrombado, o gira discos estragado. Teria sido tudo tão mais fácil e leve e bonito.
Quisemos tudo e estragamos o silêncio que se impunha em quase todos os momentos. Fomos ávidos por flores e frutos e terra manchada pelo luar.
Um dia talvez voltemos a ser lâmina da mesma espada. O corte profundo na pele um do outro. O sentido mais antigo desta existência de vidro a que nos habituamos. O sonho esquecido na gaveta de recordações. A imagem dissipada no espelho que emolduramos.
Ainda te posso escrever, sabes? Nesta cidade deserta de corpos, nesta noite que me enlaça sem permissão posso ainda escrever-te.
Que nunca venhas para ficar!
Filipa Rodrigues
Se me voltares a agradecer palavras mando-te embora! Peço para voltares a ser apenas uma memória.
O nosso destino não foi traçado para o percorrermos sozinhos, cada um para o seu lado. Tu sabes isso, ainda que nos seja tão difícil de aceitar.
Eu, de um lado, tu do outro, mas unidos pelas palavras que de nós brotam como se fôssemos terra húmida; unidos pela total ausência da necessidade de agradecimento e confissão; juntos pelo simples prazer desse sentido de existência paralela.
E é a distância que agora nos salva, essa mesma distância que outrora nos foi tão cruel e quase nos asfixiou. Essa que se entrepunha lá por casa, pela rua enquanto passeávamos abandonados à sensação ilusória de liberdade, pelos lençóis que escolhíamos sem grande exigência.
Atrevemo-nos tanto. Tínhamos tanta força, tanta coragem para viajar sem interrupções demoradas. Frágeis as palavras que lançávamos aos outros. Vincado o nosso futuro que teimávamos em construir a desfavor do vento.
Se tivéssemos sido logo abalroados pela velocidade da vida que ousávamos levar. Se alguém nos tivesse parado a tempo de conseguirmos escolher outras pedras coloridas, outros aquários disformes, outras mãos velhas, outras carpetes usadas, outras casas estranhas. A cozinha visitada, o quarto arrombado, o gira discos estragado. Teria sido tudo tão mais fácil e leve e bonito.
Quisemos tudo e estragamos o silêncio que se impunha em quase todos os momentos. Fomos ávidos por flores e frutos e terra manchada pelo luar.
Um dia talvez voltemos a ser lâmina da mesma espada. O corte profundo na pele um do outro. O sentido mais antigo desta existência de vidro a que nos habituamos. O sonho esquecido na gaveta de recordações. A imagem dissipada no espelho que emolduramos.
Ainda te posso escrever, sabes? Nesta cidade deserta de corpos, nesta noite que me enlaça sem permissão posso ainda escrever-te.
Que nunca venhas para ficar!
Filipa Rodrigues
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Letras...
(Foto de Susana Rocha)
as letras pequenas e redondas
algo imperfeitas
baralhadas
a tentarem formar palavras
negras e doces
de dor e conforto
a geada que se forma
nos dias frios,
e torna tudo esbranquiçado
a luz que flutua e aquece os sentidos
baralhadas
a tentarem formar palavras
as lágrimas que caem
sem rumo,
sob rostos pálidos
em luto
olhos que vêem as memórias
sinceras e sensíveis
baralhadas
a tentarem formar palavras
no som do silêncio
a lassidão dos movimentos
as palavras sem letras
baralhadas a tentarem formar palavras…
algo imperfeitas
baralhadas
a tentarem formar palavras
negras e doces
de dor e conforto
a geada que se forma
nos dias frios,
e torna tudo esbranquiçado
a luz que flutua e aquece os sentidos
baralhadas
a tentarem formar palavras
as lágrimas que caem
sem rumo,
sob rostos pálidos
em luto
olhos que vêem as memórias
sinceras e sensíveis
baralhadas
a tentarem formar palavras
no som do silêncio
a lassidão dos movimentos
as palavras sem letras
baralhadas a tentarem formar palavras…
Sara Gonçalves
Andante
Na direcção absoluta da alma que caminha,
sente a pequenez dos passos.
Sujos de lama,
diferenciados do que existe à volta.
Anda sempre na diagonal,
como se o vento crescente,
de uma tarde de Inverno,
inventasse o percurso obrigatório do corpo.
Duas vezes andou para trás,
como um urso bárbaro e cheio de medo.
Pelo meio das pedras,
como quem não sabe nadar,
escondeu a vontade de atirar contra os outros a fúria de quem não vence.
Longe de mais as ideias de infância… perto só a certeza do abandono.
Só a altura seria capaz de lhe sossegar a pele.
Filipa Rodrigues
sente a pequenez dos passos.
Sujos de lama,
diferenciados do que existe à volta.
Anda sempre na diagonal,
como se o vento crescente,
de uma tarde de Inverno,
inventasse o percurso obrigatório do corpo.
Duas vezes andou para trás,
como um urso bárbaro e cheio de medo.
Pelo meio das pedras,
como quem não sabe nadar,
escondeu a vontade de atirar contra os outros a fúria de quem não vence.
Longe de mais as ideias de infância… perto só a certeza do abandono.
Só a altura seria capaz de lhe sossegar a pele.
Filipa Rodrigues
terça-feira, 29 de maio de 2007
Luz...

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny
Exercício das Palavras
Estranho a forma perpétua das tuas linhas acobreadas,
o riso opaco que mostras nos dias de chuva,
a inocência dos teus braços,
a fantasia do teu movimento sempre embaraçado.
Falamos sempre por metáforas, como se a objectividade das palavras nuas fosse proibida a seres que andam sobre ar carregado.
Um dia talvez possamos ser mais do que pretendemos.
Filipa Rodrigues
o riso opaco que mostras nos dias de chuva,
a inocência dos teus braços,
a fantasia do teu movimento sempre embaraçado.
Falamos sempre por metáforas, como se a objectividade das palavras nuas fosse proibida a seres que andam sobre ar carregado.
Um dia talvez possamos ser mais do que pretendemos.
Filipa Rodrigues
Passos
De olhos vendados vias-me caminhar
Passos firmes, queixo erguido.
Na boca o esgar da adivinhação,
no corpo o arrepio por desvendar.
Filipa Rodrigues
Passos firmes, queixo erguido.
Na boca o esgar da adivinhação,
no corpo o arrepio por desvendar.
Filipa Rodrigues
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Exercício do Futuro
No movimento pernicioso do teu ombro encontrei a ideia que faltava.
Foram longos os passeios que fizeste pelo meu corpo,
Na tentativa de encontrar aquela que te escondia.
No movimento viciado das tuas mãos bebi a sombra dos gestos que me fugiam.
Foi lento o exame que fizeste das minhas curvas,
Na tentativa de descobrir o caminho de volta a mim.
Agora, no movimento demorado dos meus passos procuras a absolvição que sempre te negarei.
Filipa Rodrigues
Foram longos os passeios que fizeste pelo meu corpo,
Na tentativa de encontrar aquela que te escondia.
No movimento viciado das tuas mãos bebi a sombra dos gestos que me fugiam.
Foi lento o exame que fizeste das minhas curvas,
Na tentativa de descobrir o caminho de volta a mim.
Agora, no movimento demorado dos meus passos procuras a absolvição que sempre te negarei.
Filipa Rodrigues
domingo, 27 de maio de 2007
sexta-feira, 25 de maio de 2007
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Another moment
Nos minutos completos que víamos passar no relógio da sala, contávamos as aventuras dos amantes desconhecidos. Queríamos ser o que eles foram, assaltantes de bancos, terroristas americanos, activistas irlandeses. Depois… a bomba estourou nas nossas mãos!
Filipa Rodrigues
Just a moment
No tempo que passávamos cá dentro, gritavas-me de longe e eu pensava: como poderíamos nós ser silêncio depois de termos os corpos unidos? Nisto o sol rompia e acordávamos amedrontados com a luz que anunciava lentidão.
Filipa Rodrigues
quarta-feira, 23 de maio de 2007
terça-feira, 22 de maio de 2007
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Humanidade...

By Paulo Nozolino
"Não posso salvar uma época.
Limito-me a constatar a sua perda, sem nostalgia, resistindo à desmemoria, à frivolidade e ao ressentimento.
Sinto-me a viver um pós-guerra qualquer, onde alguns homens tentam reencontrar a sua dignidade, escutando o grito profundo que há dentro deles.
A tempo de compreender a vida, antes de a perder.”
Paulo Nozolino, Janeiro de 2005
Anjo Mudo
Vai-te ó anjo sem bocasome-te por entre planícies
deixa que no silêncio
eu me possa ver
e reencontrar sem sombras.
Foste pó,
foste luz,
foste água de fonte
que jorrou sem interrupção.
Vai-te ó anjo sem voz
dilui-te nos montes arredondados
faz com que na aridez
eu consiga ser só
e recuperar os meus membros.
Sou mel,
canção fugaz,
e como nós.
Filipa Rodrigues
As horas
No momento mais próximo da nossa verdade
julgas-me por entre lençóis e algodão
aqui que sou eu e me condenas
ao cárcere da suavidade e da melodia
sou uma pedra encantada
sou um pedaço de papel branco
um espaço vazio
um peso morto.
A voz consome-me,
desfaz-me
solta-me
e viajo… por aqui e por ali…
como se pisasse muitas terras ao mesmo tempo.
E, no dia seguinte
como que a acordar de manhã
a espera que se mantém
o sol que me anuncia mais horas… e um campo repleto de velas acesas.
Filipa Rodrigues
julgas-me por entre lençóis e algodão
aqui que sou eu e me condenas
ao cárcere da suavidade e da melodia
sou uma pedra encantada
sou um pedaço de papel branco
um espaço vazio
um peso morto.
A voz consome-me,
desfaz-me
solta-me
e viajo… por aqui e por ali…
como se pisasse muitas terras ao mesmo tempo.
E, no dia seguinte
como que a acordar de manhã
a espera que se mantém
o sol que me anuncia mais horas… e um campo repleto de velas acesas.
Filipa Rodrigues
By the window

(Autor desconhecido)
Tenho na pele um arrepio,
um dito que foi de ontem
uma palavra que passou sem ficar.
Tenho no ombro os bigodes de um gato
a língua áspera que me consola
os olhos fixos na minha cor.
Nos meus olhos parados
a luz do holofote claro
os mosquitos a rodarem sem destino
o ar quieto, o cheiro a terra molhada… e eu.
Que esta carta te encontre ainda morno, de frente para o mar…
Filipa Rodrigues
um dito que foi de ontem
uma palavra que passou sem ficar.
Tenho no ombro os bigodes de um gato
a língua áspera que me consola
os olhos fixos na minha cor.
Nos meus olhos parados
a luz do holofote claro
os mosquitos a rodarem sem destino
o ar quieto, o cheiro a terra molhada… e eu.
Que esta carta te encontre ainda morno, de frente para o mar…
Filipa Rodrigues
domingo, 20 de maio de 2007
Quarto de Pensão
Há quanto tempo viajamos? Para quê? Se já não reparamos nas paisagens.
Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um lugar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso...
Alugámos um quarto. Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao luso-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao mar.
A enseada que serve de porto de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma.
Mas não há lágrimas na verdaeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente nas mãos antigas das mulheres.
- Quem chega, etéreo, do outro lado da linha do horizonte?
Quem toca as minhas pálpebras fechadas? Onde se ergue o silêncio dos dias queimados pela paixão? Quem está sobre a minha boca, com este ardor a sal?
Ouve-se o mar, longe daqui, e eu digo:
- Andei tempo a mais pelas ruas. Vivi nelas ao sabor do vento. Dormi em casas abandonadas, e nunca conheci ninguém que me amasse. Encostando-se ao vidro da janela, a Helena diz:
- E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas.
Não sei...está tudo ainda por acontecer.
In Anjo Mudo, Al Berto
Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um lugar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso...
Alugámos um quarto. Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao luso-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao mar.
A enseada que serve de porto de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma.
Mas não há lágrimas na verdaeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente nas mãos antigas das mulheres.
- Quem chega, etéreo, do outro lado da linha do horizonte?
Quem toca as minhas pálpebras fechadas? Onde se ergue o silêncio dos dias queimados pela paixão? Quem está sobre a minha boca, com este ardor a sal?
Ouve-se o mar, longe daqui, e eu digo:
- Andei tempo a mais pelas ruas. Vivi nelas ao sabor do vento. Dormi em casas abandonadas, e nunca conheci ninguém que me amasse. Encostando-se ao vidro da janela, a Helena diz:
- E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas.
Não sei...está tudo ainda por acontecer.
In Anjo Mudo, Al Berto
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Exercício Ameno
As flores mortas na janela distante.
O vidro sujo de água castanha,
A contaminar a visão que tínhamos da rua.
Entre dois saltos bem medidos, a coragem a suplantar o medo.
Os gatos preguiçosos a observarem.
A porta aberta,
A perceber que nunca a passaríamos.
Entre o espaço livre, a aragem a contaminar a amenidade.
Tudo a saber que seria tarde de mais na mais ínfima das unidades do tempo.
Filipa Rodrigues
O vidro sujo de água castanha,
A contaminar a visão que tínhamos da rua.
Entre dois saltos bem medidos, a coragem a suplantar o medo.
Os gatos preguiçosos a observarem.
A porta aberta,
A perceber que nunca a passaríamos.
Entre o espaço livre, a aragem a contaminar a amenidade.
Tudo a saber que seria tarde de mais na mais ínfima das unidades do tempo.
Filipa Rodrigues
quinta-feira, 17 de maio de 2007
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Subscrever:
Mensagens (Atom)

























