
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
"Sem título e bastante breve"
Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...
dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
... esta memória lâmina incansável
um cigarro outro cigarro
vai certamente acalmar-me
.... que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água? no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão.
Al Berto
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira mar...
dizem que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
... esta memória lâmina incansável
um cigarro outro cigarro
vai certamente acalmar-me
.... que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água? no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão.
Al Berto
terça-feira, 23 de outubro de 2007
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
De um para outro lado
se me deixares migro
de um lado para o outro lado do espelho
se me quiseres
inteira
comum
válida
transporto o mar dos meus olhos
para o vidro que te separa da minha forma frágil
entra-me pele dentro
o toque áspero da tua mão
de duração mínima
entra-me pele dentro
o ar vigilante com que me condenas
a um cárcere ínfimo
se me deixares fujo
para onde a minha imagem não possa ser aprisionada
se me quiseres
ausente
imortal
como memória
escondo o verde traiçoeiro que carrego
no azul tranquilo de outro elemento
de um lado para o outro lado do espelho
se me quiseres
inteira
comum
válida
transporto o mar dos meus olhos
para o vidro que te separa da minha forma frágil
entra-me pele dentro
o toque áspero da tua mão
de duração mínima
entra-me pele dentro
o ar vigilante com que me condenas
a um cárcere ínfimo
se me deixares fujo
para onde a minha imagem não possa ser aprisionada
se me quiseres
ausente
imortal
como memória
escondo o verde traiçoeiro que carrego
no azul tranquilo de outro elemento
Do que gosto...
… de fotografias com água;
… de esperar pouco tempo, após marcar um encontro;
… do cheiro da terra depois de ter chovido, preferencialmente no Verão;
… da minha cadela, companheira de brincadeira;
… de provocar um sorrisinho de esgar em mim mesma;
… de pipocas doces;
… de pantufas fofinhas;
… de ser predadora e não presa;
… de me surpreender;
… de escrever cartas longas;
… de sumo de laranja pela manhã;
… de música melancólica quando me sinto angustiada, ou de uma boa bateria quando estou furiosa;
… de filmes que me façam chorar;
… da gramática portuguesa;
… de conversar em voz baixa, deitada na cama;
… de uma banheira cheia de espuma;
… de andar descalça em areia molhada;
… da comida açoriana, das hortênsias a delimitarem os campos, dos touros soltos nas ruas;
… dos meus amigos, a quem não tenho de me explicar;
… de velas acesas no terraço e um copo de vinho aquecido;
… do meu diário actual;
… do silêncio confortável entre duas pessoas;
… de colorir desenhos;
… de cozinhar ao sábado à noite para quem aparecer;
… de girassóis com pé alto;
… de livros, muitos livros espalhados pela casa, como damas de companhia;
… de confidências madrugada fora;
… de bolo de bolacha, fresquinho;
… de gargalhadas sonoras;
… das planícies do alentejo, enquanto alguém me conduz;
… da independência do meu gato;
… de sotaques e da língua portuguesa;
… de ser só, no meio de toda a gente;
… de ser provocada;
… de comprar e oferecer presentes sem razão;
… de comer sushi, devagarinho;
… de canetas de tinta permanente;
… de jazz e bossa nova;
… de vozes que choram;
… de datar tudo:
… de olhares quietos;
… de mim toda;
… de chá preto, em todas as estações do ano;
… de escrever noite dentro;
… de pensar e dizer coisas simples;
… do sol imenso;
… de xaropes para a tosse, por vício;
… duma esplanada à beira-mar;
… da voz do Camané;
… de sair sem destino logo pela manhã;
… da paisagem que vejo da janela da biblioteca;
… de fechar os olhos e respirar se me sinto cansada;
… de camisolas grossas de lã no Inverno;
… de novas descobertas;
… do verde do Minho;
… de dormir sem luz e muito;
… de sentir alguém mexer-me no cabelo;
… de viajar com companhia;
… de ser assim, sem mais!!
… de esperar pouco tempo, após marcar um encontro;
… do cheiro da terra depois de ter chovido, preferencialmente no Verão;
… da minha cadela, companheira de brincadeira;
… de provocar um sorrisinho de esgar em mim mesma;
… de pipocas doces;
… de pantufas fofinhas;
… de ser predadora e não presa;
… de me surpreender;
… de escrever cartas longas;
… de sumo de laranja pela manhã;
… de música melancólica quando me sinto angustiada, ou de uma boa bateria quando estou furiosa;
… de filmes que me façam chorar;
… da gramática portuguesa;
… de conversar em voz baixa, deitada na cama;
… de uma banheira cheia de espuma;
… de andar descalça em areia molhada;
… da comida açoriana, das hortênsias a delimitarem os campos, dos touros soltos nas ruas;
… dos meus amigos, a quem não tenho de me explicar;
… de velas acesas no terraço e um copo de vinho aquecido;
… do meu diário actual;
… do silêncio confortável entre duas pessoas;
… de colorir desenhos;
… de cozinhar ao sábado à noite para quem aparecer;
… de girassóis com pé alto;
… de livros, muitos livros espalhados pela casa, como damas de companhia;
… de confidências madrugada fora;
… de bolo de bolacha, fresquinho;
… de gargalhadas sonoras;
… das planícies do alentejo, enquanto alguém me conduz;
… da independência do meu gato;
… de sotaques e da língua portuguesa;
… de ser só, no meio de toda a gente;
… de ser provocada;
… de comprar e oferecer presentes sem razão;
… de comer sushi, devagarinho;
… de canetas de tinta permanente;
… de jazz e bossa nova;
… de vozes que choram;
… de datar tudo:
… de olhares quietos;
… de mim toda;
… de chá preto, em todas as estações do ano;
… de escrever noite dentro;
… de pensar e dizer coisas simples;
… do sol imenso;
… de xaropes para a tosse, por vício;
… duma esplanada à beira-mar;
… da voz do Camané;
… de sair sem destino logo pela manhã;
… da paisagem que vejo da janela da biblioteca;
… de fechar os olhos e respirar se me sinto cansada;
… de camisolas grossas de lã no Inverno;
… de novas descobertas;
… do verde do Minho;
… de dormir sem luz e muito;
… de sentir alguém mexer-me no cabelo;
… de viajar com companhia;
… de ser assim, sem mais!!
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Dúvida Mínima
Deixo as palavras enterradas na areia
corro sem saber se
fora de mim existe estrada ou mulher
Penso nos gestos atirados aos outros
como amuletos que
fechados para o mundo me iludem os olhos
A pele cansada do sossego
desgasta-se sem remédio
ardendo no inferno da tua ausência em mim
Põe o sol no sítio e deixa-me estar quieta,
dizia-te eu
enquanto ainda possuía na garganta
a força do teu sopro em mim.
Seremos hoje as cinzas que ainda restam dos nossos corpos de ontem?
corro sem saber se
fora de mim existe estrada ou mulher
Penso nos gestos atirados aos outros
como amuletos que
fechados para o mundo me iludem os olhos
A pele cansada do sossego
desgasta-se sem remédio
ardendo no inferno da tua ausência em mim
Põe o sol no sítio e deixa-me estar quieta,
dizia-te eu
enquanto ainda possuía na garganta
a força do teu sopro em mim.
Seremos hoje as cinzas que ainda restam dos nossos corpos de ontem?
Abraço
No abraço longo que me ofereces
descreves, talvez, os passos outrora marcados na areia
subscreves, com evidência, o que risco na água turva
e assinas a sangue, com fervor, o ar que nos rodeia.
O frágil gesto que me envias
com convicção
sem testemunha
tenta convencer-me a olhar o dia como um dia perfeito.
Mas hoje é dia de partida,
de despedida,
da suave paz do abandono voluntário…
longe de mim a vontade de ficar!
descreves, talvez, os passos outrora marcados na areia
subscreves, com evidência, o que risco na água turva
e assinas a sangue, com fervor, o ar que nos rodeia.
O frágil gesto que me envias
com convicção
sem testemunha
tenta convencer-me a olhar o dia como um dia perfeito.
Mas hoje é dia de partida,
de despedida,
da suave paz do abandono voluntário…
longe de mim a vontade de ficar!
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Um dia...
Acreditas no que te digo hoje?
Nas dúvidas atiradas pela janela de vidros sujos,
no desespero da manhã,
nos lençóis deixados em desordem?
Acreditas nos sons que te vêm de longe?
Nos rádios dos bares outrora ocupados,
no lento torpor da tarde,
no carro estacionado à porta de casa?
Acreditas no que vês agora?
Nas longas horas passadas num sofá deitado,
na espera ao fim do dia,
na lista telefónica a amarelecer?
Filipa Rodrigues
Nas dúvidas atiradas pela janela de vidros sujos,
no desespero da manhã,
nos lençóis deixados em desordem?
Acreditas nos sons que te vêm de longe?
Nos rádios dos bares outrora ocupados,
no lento torpor da tarde,
no carro estacionado à porta de casa?
Acreditas no que vês agora?
Nas longas horas passadas num sofá deitado,
na espera ao fim do dia,
na lista telefónica a amarelecer?
Filipa Rodrigues
Sendo tu...
Vivo dentro de mim com a idade que me deste
sou pedra e toque
gelo e água
vício terno
veneno suave
vaidade doce.
Calada a minha voz teima em obedecer-te
palavra e som
erva daninha
nota deslocada
e na noite perene, silêncio sem retorno.
Filipa Rodrigues
sou pedra e toque
gelo e água
vício terno
veneno suave
vaidade doce.
Calada a minha voz teima em obedecer-te
palavra e som
erva daninha
nota deslocada
e na noite perene, silêncio sem retorno.
Filipa Rodrigues
De todas as cores (improviso)
Nas cores dos dias inteiros
caminhas em cima de águas revoltas
por entre pedaços de pedras roxas;
Nos dias das cores todas
passas as horas nas vagas febris
do ouro a que me proibiste o acesso;
Hoje... neste dia carregado de sombra negra
nesta manhã de sol aparecido
escondes-te na vontade de me provocar.
Filipa Rodrigues
caminhas em cima de águas revoltas
por entre pedaços de pedras roxas;
Nos dias das cores todas
passas as horas nas vagas febris
do ouro a que me proibiste o acesso;
Hoje... neste dia carregado de sombra negra
nesta manhã de sol aparecido
escondes-te na vontade de me provocar.
Filipa Rodrigues
terça-feira, 11 de setembro de 2007
quase luz nenhuma

"em todos os retratos haverá um rastro de ferrugem
porque a demora corrói o olhar ... alinhava no papel
o ácido das noite em sépia
no vidro das montras pressentimos a fuga
o desabar da cidade sob o peso da chuva ... sempre
que o diálogo existe entre a sensibilidade do corpo
e do filme ... as mãos repetem os gestos
as palavras desfazem-se no luso-fusco surge o medo
estas pedras fascinadas pelos néons donde se solta a fera
que nos devassa os umbrais dos dias morrendo
caminhamos pela avenida miniaturizada no sonho
aqui devoramos os alicerces de quase luz nenhuma
aqui nos perdemos propositadamente ... a paula o paulo
e a silhueta duma gabardina preta comigo dentro
ao que dizemos e à noite amiga fico atento
hipnotizado nas luzes terríveis ... o receio
de mais tarde olhar as fotografias e já não sentir
pulsar no papel vida nenhuma"
Al Berto
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O`Neill
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O`Neill
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
terça-feira, 28 de agosto de 2007
sábado, 25 de agosto de 2007
Esperemos
"Há outros dias que não têm chegado ainda,
estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão
-existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato."
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão
-existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato."
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Viagem
No sol calcado que desvanece
uma luz desmaiada
o pó da estrada.
No lento percurso da viatura
vês os dias correrem
na direcção oposta.
Fossem todos os propósitos vistos por dentro,
todas as fases esclarecedoras,
todos os sinais interpretados
e o silêncio deixaria de existir.
Desaparecessem todas as mágoas escondidas
e não estaríamos aqui
envoltos em penumbra e calor.
Filipa Rodrigues
uma luz desmaiada
o pó da estrada.
No lento percurso da viatura
vês os dias correrem
na direcção oposta.
Fossem todos os propósitos vistos por dentro,
todas as fases esclarecedoras,
todos os sinais interpretados
e o silêncio deixaria de existir.
Desaparecessem todas as mágoas escondidas
e não estaríamos aqui
envoltos em penumbra e calor.
Filipa Rodrigues
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Improviso de Verão
Aparece de lá longe o dia quente
a pedra mole
o fogo a saltar.
São dois corpos molhados
a areia a escorrer
a pele queimada.
Quando a porta se abre e me vês,
impaciente
irada
pronta a atacar,
já não sou menina doce.
Longe, os dias de intimidade
ainda nos restam na memória
e no corpo cansado.
Dois ou três movimentos… eu e tu!
Filipa Rodrigues
a pedra mole
o fogo a saltar.
São dois corpos molhados
a areia a escorrer
a pele queimada.
Quando a porta se abre e me vês,
impaciente
irada
pronta a atacar,
já não sou menina doce.
Longe, os dias de intimidade
ainda nos restam na memória
e no corpo cansado.
Dois ou três movimentos… eu e tu!
Filipa Rodrigues
sábado, 18 de agosto de 2007
Beleza
By Agatha Katzensprung
"[...] A beleza é uma forma de génio...
diria mesmo que é mais sublime que o génio por não precisar de qualquer explicação.
É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol,
ou a primavera, ou o reflexo nas escuras águas dessa concha de prata a que chamamos lua.
É inquestionável. [...] "
In O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Dança
Entre o vazio da sala e eu
permanece fixa a tua presença,
obstinada,
alicia como quem despe com um olhar
os meus sentidos,
arrepia a minha vontade
como a lâmina de uma espada
e faz tremular a memória
ainda casta.
Inspiro o teu perfume que as paredes libertam
e a minha face ergue-se
à procura do teu beijo.
Não te alcanço.
O corpo vem por arrasto.
Não te alcanço!
Os braços estendem-se para abraçar as
partículas que ainda restam.
Não te toco!
Giro, volteio, revoluteio.
Não te encontro…
O delírio atira-me ao chão
mas a vontade ergue-me a face
à procura do teu beijo.
Vera Carvalho
permanece fixa a tua presença,
obstinada,
alicia como quem despe com um olhar
os meus sentidos,
arrepia a minha vontade
como a lâmina de uma espada
e faz tremular a memória
ainda casta.
Inspiro o teu perfume que as paredes libertam
e a minha face ergue-se
à procura do teu beijo.
Não te alcanço.
O corpo vem por arrasto.
Não te alcanço!
Os braços estendem-se para abraçar as
partículas que ainda restam.
Não te toco!
Giro, volteio, revoluteio.
Não te encontro…
O delírio atira-me ao chão
mas a vontade ergue-me a face
à procura do teu beijo.
Vera Carvalho
domingo, 12 de agosto de 2007
estados
Naqueles anos, todos eles se tinham movido sem saberem muito bem se acordariam na manhã seguinte. Viviam numa febre constante, numa vertigem, nem excesso permanente. Era preciso viver depressa e morrer, de preferência ainda jovem. Nenhum deles alimentava projectos ou ambicionava fosse o que fosse. Era lhes indiferente estar vivo ou morto. Mantinham-se nesse lugar mal iluminado e sem saída: a vida.
Uns tinham fugido de casa dos pais, outros tinham-se exilado voluntariamente do mundo. Viviam espalhados por apartamentos de subúrbio, ou tinham viajado por países distantes donde raramente regressavam. E, dos que ficaram, nenhum possuía uma ideia precisa daquilo que seria necessário fazer para não sucumbir em tamanha desolação. Nenhum deles tentara sequer explicar aos outros que estranho vazio se apoderara de si.
Restava-lhes a amizade e a cumplicidade de alguma paixão para resistirem ao caos devorador da cidade, e à moleza quase beata da "geração" a que se recusavam pertencer.
"Geração" essa que eles viram, com curiosidade e algum desprezo, pôr a tralha às costas e partir sem destino. Anos mais tarde, uma vez regressados, atulhados de tudo quanto haviam recusado e abandonado, não faziam senão cobrir-se de ridículo. Vivendo no sossego falso de apartamentos "estilo humilde"(banquinhos de madeira e almofadas no chão, reproduções de budas espalhadas desde o wc ao quarto), rodeados de filhos e animais de estimação, davam-se ao trabalho de inculcar, tanto a uns como a outros, novos preceitos morais e uma boa dose de ecologia tonta. Eram peritos em discursos santos e tristonhos, advertindo à força as crias vegetarianas contra os inúmeros pecados da carne.
Para Beno e os amigos, era precisamente a fúria de tudo desejar e ter imediatamente que os impedia de soçobrar na vulgaridade e na norma. Os outros pareciam acomodar-se num estado morto-vivo, enquanto eles iam morrendo a cada instante. Lúcidos e atentos, mesmo quando a loucura lhes roubou Zohía, e a morte embarcou Kid num esquife de treva e dor.
In Lunário, Alberto
Uns tinham fugido de casa dos pais, outros tinham-se exilado voluntariamente do mundo. Viviam espalhados por apartamentos de subúrbio, ou tinham viajado por países distantes donde raramente regressavam. E, dos que ficaram, nenhum possuía uma ideia precisa daquilo que seria necessário fazer para não sucumbir em tamanha desolação. Nenhum deles tentara sequer explicar aos outros que estranho vazio se apoderara de si.
Restava-lhes a amizade e a cumplicidade de alguma paixão para resistirem ao caos devorador da cidade, e à moleza quase beata da "geração" a que se recusavam pertencer.
"Geração" essa que eles viram, com curiosidade e algum desprezo, pôr a tralha às costas e partir sem destino. Anos mais tarde, uma vez regressados, atulhados de tudo quanto haviam recusado e abandonado, não faziam senão cobrir-se de ridículo. Vivendo no sossego falso de apartamentos "estilo humilde"(banquinhos de madeira e almofadas no chão, reproduções de budas espalhadas desde o wc ao quarto), rodeados de filhos e animais de estimação, davam-se ao trabalho de inculcar, tanto a uns como a outros, novos preceitos morais e uma boa dose de ecologia tonta. Eram peritos em discursos santos e tristonhos, advertindo à força as crias vegetarianas contra os inúmeros pecados da carne.
Para Beno e os amigos, era precisamente a fúria de tudo desejar e ter imediatamente que os impedia de soçobrar na vulgaridade e na norma. Os outros pareciam acomodar-se num estado morto-vivo, enquanto eles iam morrendo a cada instante. Lúcidos e atentos, mesmo quando a loucura lhes roubou Zohía, e a morte embarcou Kid num esquife de treva e dor.
In Lunário, Alberto
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Aqui. Hoje.
Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
Jorge Luís Borges
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
Jorge Luís Borges
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
terça-feira, 31 de julho de 2007
quarta-feira, 25 de julho de 2007
crescente
segunda-feira, 23 de julho de 2007
quinta-feira, 19 de julho de 2007
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Outono

By Joy Robin Owen
"O Cair das Folhas
O Outono cobre as longas folhas que nos amam
e os ratos escondidos nos feixes de cevada,
As húmidas e amarelas folhas do morangueiro silvestre
E, sobre nós, as folhas amarelas da sorveira.
Envolveu-nos a hora do declínio do nosso amor,
E agora as nossas almas estão cansadas, exaustas;
Separemo-nos, antes que se gaste o tempo da paixão,
Com um beijo e uma lágrima sobre a tua fronte inclinada.
William Butler Yeats
domingo, 15 de julho de 2007
ousarão os corpos?

By Geoffroy Demarquet
"diluído no esquecimento reconstrói-se o lugar
por onde regressámos ao tempo das manhãs felizes
a obra progride sob a cinza clara da noite
que fica entre nós fingimos não doer e partilhámos
nada sobreviverá depois do sono
e o mar essa revelação
já não traz a trémula alegria dos corpos
o sol parece um vidro sulcando
o rosto que as palavras tentam imitar
muito pouco sobejará dos repetidos gestos
talvez fique o consolo de ter apercebido uma lua
ou o rastro dum anjo escapando à loucura do sonho
lúcido e apaixonado
debruço-me para o papel onde a escrita se regenera
na chuva e nos ventos demorados como desgostos
e os corpos ousarão alguma vez permanecer vivos?
sossegados?"
In O Medo, Al Berto
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim a ratos
Alexandre O´Neil
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim a ratos
Alexandre O´Neil
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Procura...
"Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha."
Eugénio de Andrade
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha."
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 9 de julho de 2007
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Veludo
Dos gritos ela nada sabia. Pouco sentia, sempre vigilante, coberta de veludo carmim. Dos pés à cabeça. Brilho e mais brilho. Nuances de tecido e de baton. E vozes, muitas vozes na cabeça.
Dos gritos, que ouvia, ela nada sabia. As pernas carregadas de marcas negras. O ofício a toldar-lhe a razão que restava. No braço, pendurada, uma carteira dourada. Pequena, suficiente, repleta.
Dos seus gritos, que não ouvia, sabia pouco. Pouco de mais para os calar!
Filipa Rodrigues
Dos gritos, que ouvia, ela nada sabia. As pernas carregadas de marcas negras. O ofício a toldar-lhe a razão que restava. No braço, pendurada, uma carteira dourada. Pequena, suficiente, repleta.
Dos seus gritos, que não ouvia, sabia pouco. Pouco de mais para os calar!
Filipa Rodrigues
Desafio de uma semana
se para a janela me conduzo
sem me impressionar com o vidro sujo
sem lamentar o pesar dos passos
sem resistir ao apelo do sol
se pela porta saio
ao teu encontro
depois do escuro chegar
se no dia em que pelas escadas rolar
a minha consciência
a minha força
o meu talento de te fazer rir
desaparecer
pouco me importa
pouco me importa o porquê…
Filipa Rodrigues
sem me impressionar com o vidro sujo
sem lamentar o pesar dos passos
sem resistir ao apelo do sol
se pela porta saio
ao teu encontro
depois do escuro chegar
se no dia em que pelas escadas rolar
a minha consciência
a minha força
o meu talento de te fazer rir
desaparecer
pouco me importa
pouco me importa o porquê…
Filipa Rodrigues
segunda-feira, 2 de julho de 2007
domingo, 1 de julho de 2007
sábado, 30 de junho de 2007
Mark Rothko
" Homenagem a Mark Rothko
Amarelo, laranja, limão,
depois o carmim: tudo arde
nas areias
entre as palmeiras e o mar - era verão.
Amarelo, laranja, limão,
depois o carmim: tudo arde
nas areias
entre as palmeiras e o mar - era verão.
Mas no lugar do teu nome
a terra tem a cor do verde
pensativo, que só a noite
pastoreia leve. "
In Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























