
By Geoffroy Demarquet
"diluído no esquecimento reconstrói-se o lugar
por onde regressámos ao tempo das manhãs felizes
a obra progride sob a cinza clara da noite
que fica entre nós fingimos não doer e partilhámos
nada sobreviverá depois do sono
e o mar essa revelação
já não traz a trémula alegria dos corpos
o sol parece um vidro sulcando
o rosto que as palavras tentam imitar
muito pouco sobejará dos repetidos gestos
talvez fique o consolo de ter apercebido uma lua
ou o rastro dum anjo escapando à loucura do sonho
lúcido e apaixonado
debruço-me para o papel onde a escrita se regenera
na chuva e nos ventos demorados como desgostos
e os corpos ousarão alguma vez permanecer vivos?
sossegados?"
In O Medo, Al Berto